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Workshop
textos por Circe Brasil
O ano de 2003 foi com quase nada de Angra, só se reuniram para fazer o “Temple of Shadows”, em novembro. Fora isso, se apresentaram em alguns festivais europeus – Viña Rock, Sweden Rock e Gods of Metal – e o Pop Rock, em Belo Horizonte. Nada demais nos shows. Nesse ano, Aquiles decidiu fazer uma turnê de workshops.
“E aconteceu uma coisa engraçada. Eu conversei com meus patrocinadores da época, que eram oito, para que eles me dessem uma ajuda de custo para viabilizar a tour, fazendo umas camisetas para eu vender. Eu fiz uma tiragem pequena, 300 exemplares, de uma camiseta com metade com meu rosto e metade com a máscara que eu usava na época. O Toninho me ligou antes do primeiro workshop, falou que sabia das camisetas e disse que eu tinha que dar 20% para o Angra, já que eu era o baterista da banda. Eu achei que isso não era coisa do Toninho, apertei e ele acabou dizendo que tinha sido o Kiko que tinha dito. No momento que eu desliguei o telefone, liguei para o Kiko, ele começou o papo perguntando como eu estava e eu disse que estava puto. Falei que tinha conversado com o Toninho, que não concordava com aquilo, que eu estava trampando, só eu e o Marquinhos... Aí, ele falou que eu não tinha entendido o conceito da coisa – sempre que o Kiko não tem razão, ele sempre vai por esse lado filosófico, de tentar enrolar você com conceitos e outros trejeitos-. Eu paguei porra nenhuma! E depois vendi tudo e ainda mandei fazer mais 300! E vendi tudo outra vez, hoje não tem mais nenhuma. Já o workshop que eu comecei a fazer acabou se tornando um workshow. Eu comecei a receber pedidos para fazer os workshops mas nunca tive idéia de como seria o formato dele. Então, comecei a fazer pra ver o que acontecia. Os primeiros eu fazia com bateria local até eu definir essa forma de levar minha bateria numa carretinha bem simples e bem pequena. Levava só os microfones e os cabos, e usava um equipamento de som local. Daí, às vezes, a gente tinha um lugar legal mas um técnico de som meio maneta e um som pior ainda. Por isso, tinha que eu ir lá passar o som e ajeitar as coisas.
Em 2005, eu resolvi levar todo o equipamento de som. O formato do workshop foi baseado num show e falando sobre a técnica. Então, tocava uma música e falava um pouco sobre ela, detalhando como aquelas idéias tinham começado, através dos exercícios mais básicos, que é o tipo de coisa que o baterista entende. Eu incluí no repertório dois hard rocks, porque todo mundo que vai num workshop meu, ou vai ter aula comigo, quer aprender dois bumbos. E essas duas músicas são bem retas, mas que se você não tocar direito, elas vão soar mal. A função do batera em si é “groovar”. Seja um batera de death metal, de samba ou de metal, a base é o groove. A virada é um detalhe, uma evolução. E apesar de eu ter esse lado mais virtuoso e mais técnico, eu não abro mão de um bom groove.
A partir de tudo isso, eu comecei a criar algumas apostilas que hoje fazem parte do workshop e quanto mais eu fazia, mais coisa ia aparecendo para incluir. O primeiro foi realizado em fevereiro de 2002, no Souza Lima. A turnê começou em maio de 2003. Entre essas duas datas, eu tinha feito uns oito workshops. Aí, peguei o gosto pela coisa. E é muito legal porque não tem mais ninguém pra encher teu saco. E continuo fazendo. Atualmente, ele está bem mudado. Não dá pra dizer se no workshop vão só fãs do Angra e Hangar ou do Aquiles, mas certamente são fãs de bateria. Tem gente que nem conhece bem o Aquiles, mas depois do workshop passa a entender o que eu faço e o que eu quero passar. Em 2003 foi o ano em que eu botei pra valer isso a funcionar, fiz uns 60 workshops”.
Quase parando
textos por Circe Brasil
O resto do ano de 2007 foi bem devagar em relação ao Angra. E é importante falar que mesmo antes do episódio da briga, antes mesmo do problema entre o Rafael e o Edu, foi cogitado pelo Kiko que a banda deveria parar uns seis meses, após voltar da turnê, para darem uma arrumada geral na casa. O Toninho queria fazer isso, simultaneamente aos shows, para o dinheiro continuar entrando, mas acabou ficando combinado que a banda pararia.
Aquiles tinha seus planos em cima disso, já que o disco do Hangar estava previsto para sair em maio de 2007. Como na parte administrativa do Angra ele nunca apitava nada, teria um bom tempo livre para se dedicar ao Hangar. Só que o Toninho acabou mandando eles para uma ultra suicida turnê pela América do Sul, fazer cinco shows em sete dias. Argentina, Colômbia, Peru e Chile.
“E, pra variar, quem se fodeu? Eu. Porque o Toninho demorou para negociar o cachê do Marquinhos e, quando finalmente fez o acerto, não havia mais tempo para tirar o visto. Então, eu viajei sozinho. Era foda porque as baterias que havia nesses países eram muito antigas, o que fazia com que a montagem fosse na base de martelo, prego e alicate. E éramos eu e um técnico local para fazer tudo.
Consequência, no terceiro dia, minhas mãos já estavam inchadas. E era esquema com vôos de madrugada, praticamente sem dormir, e eu tinha que ir direto para o lugar do show. Eu dormia no camarim, após a passagem de som, antes de a banda chegar para o show. Voltei moído... E recebi um e-mail de um fã que dizia que tinha ficado decepcionado porque havia ido até uma tarde de autógrafos da banda só pra me encontrar e o Kiko disse que eu tinha ficado dormindo no hotel, sendo que todo mundo sabia que eu estava sem roadie e tinha que ir direto para o local do show montar minhas coisas. Aquilo me fez subir o sangue! O cara me deu uma rasteira bonita porque eu passei por imbecil. Eu respondi pro cara com cópia para o Kiko, disse que não tinha sido nada daquilo, que eu estava viajando sem roadie e tinha que montar minha bateria em todos os shows. Eu tenho cópias desses e-mails. Mandei outra mensagem, só para a banda, botando tudo pra fora. Aí, o Kiko me chamou pra gente bater um papo. Fomos jantar uma noite, só eu e ele. E a gente viu que não tinha como, era preciso ter uma pausa grande. No caso dele, o maior problema era que ele nunca aceitou muito bem que eu tivesse um espaço tão grande junto aos fãs do Angra.
Quando os fãs gritavam meu nome nos shows, o que acontecia 11 vezes a cada 10 shows, ele fazia uma imensa cara de desgosto. É diferente quando se trata do vocal, ele é o cara que conversa com o público, aí não tem jeito. Isso ele tem que agüentar. Agora, o público gritar o nome do batera, que está lá no fundo e atrás de um monte de coisas que estão na frente, incomodava bastante. Tinha uma época em que ele começava a fazer barulho com a guitarra na hora em que o público gritava meu nome. Depois, veio a ordem que eu não deveria me levantar tanto da bateria porque tirava a atenção do show da banda e incitava a platéia a gritar meu nome. Foi o mesmo caso do polvo que eu punha na frente da bateria, na turnê do "Temple of Shadows" mandaram que eu tirasse porque chamava muito a atenção e era um mascote pessoal meu, não do Angra, e aquilo atrapalhava o cenário da banda e atrapalhava a passagem dele, Kiko, na frente do praticável da bateria. Nesse ponto, o Rafael via o esquema mais como algo geral para o Angra. Se o público gostava do baterista, ele achava bom porque era benéfico para a banda. Esse problema de ego, sempre foi maior, com o Kiko.”
Tocando na Europa com o Dream Theater em 2005
textos por Circe Brasil
E nessa turnê eu tive oportunidade de conhecer o Mike Portnoy, que sempre foi um grande ídolo. A gente tocou com eles na Itália durante essa turnê. Foi meio corrido, a gente teve que montar a batera fora do palco, mal teve tempo de passar o som. Durante o show, eu vi que o Felipe e o Edu ficavam olhando na minha direção mas vendo alguma coisa atrás de mim. Foi um show muito rápido, tocamos só sete músicas. Uma hora eu percebi uma movimentação estranha no palco mas não conseguia ver o que era. Quando chegou uma parte da música "Winds of Destination" em que a batera pára e ficam só o Edu e o Fábio, eu desci da batera e o Marquinhos, meu roadie, falou, rindo: "O Portnoy tá aí desde o começo do show!" Eu olhei pra trás e ele estendeu a mão por de trás do pano preto que cobria os seu kit, tipo cumprimentando. Na seqüência, tinha uma parte da música que era uma das mais difíceis do show, repleta de notas, um monte de peças sendo tocadas ao mesmo tempo. E a presença do Portnoy só me incentivou a fazer aquilo ainda melhor. Pra mim, quanto maior a pressão, melhor o show. Eu adoro viver sob pressão! Eu adoro iniciar o dia sabendo que eu tenho um desafio grande pela frente, que tenho que resolver várias coisas em pouco tempo e que tenho que fazer as coisas darem certo. É complicado eu desistir de alguma coisa...
Mas, voltando ao show, aquela passagem a que eu me referi costuma impressionar até quem não toca batera, o cara que toca se impressiona mais ainda, porque é muito rápido, tem um monte de notas e eu uso várias peças. Além disso, é tudo em uníssono, ou seja, o que eu toco com a mão tem uma nota no pé, e tem que ser sincronizadíssimo – direita, esquerda; direita, esquerda... – num beat de 160 bpm. Depois, quando acabou o show, estávamos eu, Edu e Felipe conversando e o Portnoy chegou no meio dos caras, bateu no meu ombro e disse que ficou impressionado com o show. Eu tinha conhecido o Portnoy dois dias antes, no Lorca Rock Festival, na Espanha, e ele comentou que não tinha ouvido nada do Angra novo, porque já tinha tocado com a formação antiga. Nós ficamos vendo o show do Iron Maiden ali do palco e comentando algumas coisas – e eu tentando manter a naturalidade, como se fosse a coisa mais normal do mundo... Foi foda isso... Mas o mais legal foi que ele fez aquele comentário lá na Itália na frente das outras pessoas. Eu acho que é isso que faz um músico, ser seguro da importância dele e não ficar medindo palavras quando acha que tem que falar algo, sabendo o que aquilo vai significar para quem admira tanto o trabalho dele. Porque é impossível alguém nesse segmento do rock, do progressivo, do metal, que não saiba quem é o Portnoy, qual é a banda dele e a importância deles. Voltando à conversa com o Portnoy, depois de a gente falar um pouco ali, fui tomar banho. E eu escuto a voz do Portnoy no banheiro dizendo: "O baterista de vocês é incrível, como ele é preciso, tem idéias ótimas. Fiquei impressionado!" E não houve nenhuma resposta. Acho que as pessoas ficaram tão ou mais chocadas do que eu. Eu abri a cortina e espiei: eram o Kiko e o Rafael, que não sabiam que era eu quem estava no banho. E eu também nunca falei pra eles que eu ouvi essa conversa. Mas eles não disseram nada, podiam falar que eu estou sempre estudando, pesquisando... E nem pra mim eles falaram que o Portnoy comentou com eles a meu respeito! Eles sempre tiveram o pensamento de que a gente não podia crescer porque isso não seria bom para a banda.
E depois, quando eu estava preparando meu livro com 100 grooves de dois bumbos, mandei um e-mail pra ele (Portnoy) pedindo um depoimento dele. E mandou um depoimento maravilhoso, muito motivador.
Tour pelo Oriente
textos por Circe Brasil
Em junho de 2002, o rumo de Aquiles com a Banda Angra foi tocar no Japão em cinco shows e em Taiwan. Viajar para lá assustou mais do que ir à Europa. O que mais impressionou é que lá tudo funciona. E lá, as cartas foram abertas de uma forma bem clara, ficando evidente como funcionava o "esquema Angra". Aquiles num puta pique, com muita vontade de fazer e de fazer o melhor, começou a perceber algumas coisas que lhe incomodavam. Por exemplo, o Fábio Laguna, tecladista convidado do Angra e seu grande amigo e afilhado de casamento, estava interessado em comprar um teclado, que ele e o Kiko viram num passeio pela cidade. O Fábio voltou e pediu ao Toninho pra ver se era possível fazer um adiantamento de grana, mas o Toninho disse que tinha que se preocupar com excesso de peso e falou um monte de coisas que acabou quase desmotivando o Fábio a fazer o negócio.
Fábio comentou com Aquiles e este lhe ofereceu um empréstimo, já que tinha a grana que o afilhado precisava. Entusiasmados, os dois foram até a tal loja e o teclado tinha sido vendido. A balconista informou que o Kiko e um "baixinho e carequinha", que era o Toninho, tinham levado o teclado que o Fábio tinha escolhido.
"Diante desse tipo de injustiça eu não consigo ficar quieto e eu ficava muito puto! Nesse ponto eu sempre fui uma pedra no caminho, quando eu via algo errado, mesmo que não tivesse a ver comigo, eu entrava na briga. E foi o caso do teclado do Fábio. Eu fui até o quarto do Toninho, sem o Fábio, e o intimei. Ele disse que estava comprando para fazer arranjos para a banda e que a banda é que iria pagar o excesso de peso. E começou uma briga. Eu fiquei completamente desapontado e eles viram isso. O tempo todo eu, o Toninho e o Kiko batíamos boca sobre isso. Uma vez, eu estava indo pro quarto do Toninho e ouvi o Kiko dizendo que ele não podia deixar que eu falasse com ele naqueles termos, que ele era o empresário da banda, que não tinha nada a ver eu ficar protegendo o Fábio... Eu achei aquilo uma injustiça muito grande. Meu impulso foi entrar e confrontar os dois, mas me segurei. Isso é uma coisa que eu acho que eu deveria ter feito de outra forma, já que eu já tinha entrado na briga. E depois que chegamos no Brasil, o Kiko vendeu pro Fábio, o teclado antigo dele..."
Estar no Japão foi enriquecedor para Aquiles. Era tudo novidade, tudo funcionava muito bem. Onde teve a chance de ver uma outra cultura e um público, extremamente educado e carinhoso, presenteador - ele passou seu aniversário no Japão e recebeu muitos presentes. Em Taiwan visitou pela primeira vez uma das sedes da Mapex, um dos laboratórios de desenvolvimento. Produziram até uma peça especial para sua batera, um tom-tom de 13". O gerente de vendas para a América do Sul veio falar com ele, comentar que acompanhava o excelente trabalho que ele estava fazendo e, a partir dali, Aquiles passou a manter contato direto. De certa forma, isso incomodou os membros mais antigos da banda. E quanto mais o tempo foi passando, mais claro se tornou o lado mesquinho.
"Minha ida para o Japão e Taiwan foi legal, também, porque eu voltei com um monte de coisas da Coca-Cola - eu coleciono objetos referentes à Coca-Cola. E tive que jogar um monte de coisa fora pra poder caber tudo e não dar excesso de peso. Legal mesmo, uma experiência incrível."
GRAVAÇÃO DE UM DISCO
textos por Circe Brasil
Com seis músicas prontas e mais uma instrumental que o Cristiano fez, estava na hora da banda Hangar gravar um disco. Criaram mais uma e mesmo oito músicas, era pouco, tanto que deu só 36 minutos, mas seguiram assim mesmo. No final de 98 entraram no estúdio para gravar o “Last Time”. Fizeram o que era possível, gravaram em rolo de meia polegada, do começo ao fim num take só, não tendo como editar. Eram músicas rápidas, acontecendo uns errinhos que ficaram por não ter mais perna para continuar a tocar.
“Na gravação estava uma puta vibe legal, a gente estava apavorando em Porto Alegre – porque era esse o nosso objetivo, apavorar em Porto Alegre. Fizemos a produção do jeito que a gente achava que tinha que ser, gastamos umas 150 horas de estúdio. Pra mim, foi um pouco difícil, porque bateu aquela dúvida se eu ia ser capaz de gravar aquilo tudo até o fim. Às vezes, você ia bem até a metade e aí acontecia um tropeço e tinha que começar tudo outra vez. Hoje, eu percebo que, no geral, tem uma série de coisas que não estão bem gravadas – mais especialmente na voz, que ficou muito aquém do que a gente poderia fazer. Faltava-nos conhecimento pra isso.”
O Cristiano gravou os baixos, enquanto anunciavam num jornal procurando baixista. E ao lado estava publicado um anúncio do Nando Mello, vendendo o equipamento porque decidira parar de tocar, mas viu o anúncio do Hangar e como já tinha ouvido falar na banda por causa do show com o Angra, resolveu ligar. Ligou, se apresentou e disse que tocava bem na mesma linha – mas era mentira, ele não tocava! Convidaram pra ele aparecer no estúdio, na época em que estavam gravando. E aí chegou o Nando, um cara baixinho, magrinho, franzino... Ouviu as músicas, um monte de metralhadoras, e ficou meio assustado, falou que pensava que era um lance mais melódico e que não sabia se era capaz de acompanhar porque era um lance mais brutal e rápido.
“Nando até solfejou o que ele imaginava que era o nosso som e até hoje a gente tira sarro dele por causa desse solfejo. Depois que o disco já estava pronto, a gente fez alguns ensaios com o Mello meio aos trancos e barrancos e a estréia desse disco foi em maio de 99. Por causa do meu trabalho com a Dana, eu tinha contato com umas gráficas que faziam embalagens e cartelas. E eu sempre dizia que um dia ia precisar de um favorzinho deles.”
Não demorou pedir para uma de essas gráficas fazerem os cartazes para o show de lançamento. A capa do disco já estava pronta, criação da Patrícia. O Vitor Hugo Cecatto arrumou umas imagens muito loucas que uns dois meses depois do lançamento souberam que já tinham sido usadas num disco de outra banda de Porto Alegre. O Vitor Hugo ficou calado. Não pensou que fosse um negócio de projeção nacional.
Não deu outra, a banda buscou satisfação, tinha sido copiado. E resultou numa mídia legal. A cidade de Porto Alegre ficou forrada com cartazes do “Last Time”. Era a “banda da velha”, porque tinha uma velha na capa. Cobriu de tal forma a cidade que a prefeitura ligou pro bar onde ia acontecer o show ameaçando de processo. O pessoal do bar cobrava do Hangar, dizendo que estavam malucos, que ia sobrar pra eles. Até que contornaram tirando os cartazes de alguns lugares.
Aquiles saía mais cedo da faculdade para colar cartazes. Altas horas da manhã de carro os quatro doidos estavam colando cartazes pela cidade. Seguiam a ética de respeitar as outras bandas que estavam com shows na mesma semana, nunca colocavam em cima. Até que algumas dessas bandas que tinham sido respeitadas colaram cartazes em cima dos deles. Aí, o bicho pegou. Com mais bala na agulha, cobriam todos os outros cartazes! Eles colavam em cima de novo e recebiam o troco. As paredes ficavam grossas! Eram quase 5 mil cartazes tamanho A3 pra divulgar um show num lugar onde cabiam umas 800 pessoas.
Colaram uns 3.500 cartazes com aquele tom azul muito chamativo. A mesma cor foi escolhida para capa do segundo disco. Não pouparam nem o show do Kiss, panfletando na porta, mais de 6 mil flyers. No fim, conseguiram 683 pagantes, no show que mudou as suas vidas. Chamaram o mesmo técnico que acompanhou o som deles no bar Opinião e ainda gravaram o show em vídeo com som direto da mesa. O vídeo não ficou lá essas coisas, na verdade, ficou com uma péssima iluminação. Mas de resto foi sensacional!
“O mais legal foi ver que as pessoas estavam lá pra ver a gente. Depois desse show, dava pra dizer que Porto Alegre tinha uma nova banda de metal, que era o Hangar. Nunca tinham feito um trabalho tão agressivo como o que a gente fez.”
A PRIMEIRA BANDA EM PORTO ALEGRE
textos por Circe Brasil
No meio do ano de 1988, Aquiles mudou-se para Porto Alegre acompanhando a família. Tomou a decisão na última hora, seguindo sua intuição, algo dentro dele disse para ir. Logo que chegou ele sentia-se muito triste e também estava tendo outra grande dificuldade, que era a de arrumar um colégio para seguir estudando. O melhor divertimento que tinha era o de pegar o ônibus, que passava na frente do seu prédio, e ir até o centro da cidade, nas lojas de instrumento musical e lojas de discos usados. Ele ainda não conhecia a galera que mexia com música, os caras só o conheciam porque ele estava sempre por lá, olhando, mas nunca levava nada porque não tinha dinheiro – mal tinha grana para passagem do ônibus de ida e volta. Perdeu a conta de quantas vezes pediu para o cobrador de ônibus, o deixar descer sem pagar.
Aquiles voltou a estudar e arrumou a sua primeira banda em Porto Alegre, a Nômades de KZAK. Na hora do intervalo das aulas, todo mundo saía da sala e ele ficava batucando ou então desenhando, porque geralmente as pessoas saiam para comer alguma coisa e ele não tinha grana. Então, ficava na sala pra não ver as pessoas comendo, o que dava mais vontade de comer. Um dia, estava lá batucando quando um cara chegou e disse: “Pô, já vi você umas três ou quatro vezes aí batucando... A gente tem uma banda e tá sem batera. Você não quer tocar com a gente?” Entusiasmado falou que tinha tocado numa banda muito tempo e estava sentido falta. Só que ele não tinha nem baqueta, porque a que ele usava para praticar era de ferro, para ganhar mais técnica e resistência. Na verdade, nem era baqueta, era uma viga de construção civil. O cara disse que tudo bem, mas que a banda ensaiava num estúdio e que tinham que rachar a despesa. Aquiles teve que dizer que não tinha jeito, que, dependendo do dia, talvez não tivesse nem como pagar o ônibus. Francisco, Chicão como ficou conhecido, era um cara muito legal.
“Foi ruim falar de um assunto íntimo e constrangedor assim, para alguém que você mal conhece. Eu acho que o que pega em qualquer situação é sempre a questão da grana, porque você passa a depender muito das outras pessoas pra fazer aquilo que quer. Então, os caras tinham que pagar tudo: transporte, comida, estúdio. Naquela hora em que dá uma puta fome depois do ensaio, os caras tinham que bancar o lanche. Era foda, eu me sentia muito mal com isso, eu me sentia sempre numa posição inferior. Minha irmã, a Dalila trabalhava como secretária bilíngüe e sustentava a família toda: eu, minha mãe, meu irmão mais novo e ela mesma. E mais tarde ela ainda iria me ajudar muito mais.”
Os caras da Banda viram que Aquiles tinha muita vontade de pegar e fazer a coisa acontecer, só não tinha condições financeiras, mas, no mais, o que precisasse, ele fazia: pegar três ônibus pra ir ensaiar, levar os trecos nas costas e tudo mais. Ele nem fez teste porque a banda não tinha muita opção. Viram que ele tocava bem e tinha uma boa noção de andamentos. A grande preocupação dos caras das bandas era saber se o músico tinha noção de tempo, se ele conseguia tocar dentro de um andamento. O Nômades de KZAK fazia um punk rock meio pop, uma coisa meio Offspring.
O Chicão como vocalista, tinha uma voz de galã, tipo Renato Russo, aveludada, bonita. E era meio sem dinheiro, também. O baixista tinha um baixo bacana, ele não tinha assim muita grana, mas era muito bem empregado na área de informática e ganhava legal. Luiz era um dos mais velhos, na faixa dos 28 anos. Ele fez as contas, viu o quanto gastavam de estúdio, alimentação e tudo mais, e achou melhor comprar uma bateria e ensaiar na casa de alguém. Então, lá foi o baixista, de novo, comprar uma batera – lembra da história da Stylo Livre? – dessa vez uma Roll Star. Uma bateria legal com um bumbo de 20”, com sete peças. Ela foi para casa do Aquiles porque, a princípio, iam ensaiar, no apartamento, mas era alugado e na primeira tentativa já deu vizinho reclamando de barulho e ameaçaram despejo.
Dalila falou ao Aquiles que lá não dava mais para tocar, mesmo demonstrando que ficou feliz, porque as coisas estavam indo bem – antes desse esquema do Chico tê-lo chamado, Aquiles quase voltou pra Foz e sua irmã não queria que isto acontecesse. Ela até ficou muito brava porque julgou que ele estava sendo mal agradecido por querer voltar. Por duas vezes aconteceu dele quase voltar para Foz, mas no dia da viagem resolvia não ir. Numa das vezes, estava dando aquele famoso passeio de ônibus e reparou no clima meio europeu de Porto Alegre, aquele inverno, meio nublado, e pensou: “Alguma coisa me diz que não é pra eu ir embora, acho que eu vou ficar por aqui.” E ficou. Deixou sua irmã feliz, pois ela sentia que ele queria fazer alguma coisa para sua vida e se tivesse voltado pra Foz, sabe-se lá o que teria acontecido...
STYLO LIVRE
textos por Circe Brasil
O ano de 1987 foi realmente cheio de acontecimentos. O primeiro show, aquele na zona, foi por volta de abril. A existência do Ultraje a Rigor Jr já completara dois anos.
Aquiles não era ligado em questões políticas que rolavam no país. No entanto, a morte do Tancredo Neves marcou muito, principalmente os jovens brasileiros, naquele momento de conquista da democracia. Viu sua mãe e muita gente chorar, lamentando a perda da chance das coisas melhorarem. Tancredo era um líder político que simbolizava essa esperança. Aquiles sentiu, mesmo não sendo engajado em política como alguns de seus amigos. Nem engajado, nem alienado. Achava interessante saber o que estava acontecendo, mas sem entender a fundo.
Com a recusa da mãe, Aquiles teve que sair da Tropical. A Banda que caiu na estrada, como um circo, viajando de cidade em cidade. Da mesma forma em que hoje, há bandas que dividem a cena com o Angra e Hangar, naquele tempo, havia bandas de baile que dividiam a cena com a Tropical Band.
Antes de Aquiles sair da Banda, tocavam num bar chamado Speed Way, quando os integrantes da banda Stylo Livre foram assistir o show. Eles buscavam um baterista e ficaram sabendo que lá tocava um com o perfil que eles estavam procurando. A Stylo era uma banda de jovens, na faixa etária de Aquiles. Já a Tropical Band era formada por um pessoal com mais idade, em torno de 30 e o Silva perto de uns 45 anos.
A Stylo Livre era uma banda de músicas próprias, apresentando o que chamavam de “influência 100% RPM”. Tinha o teclado Casio com timbre bem característico do momento. Na banda o Maurício tocava guitarra, o Ronald o teclado e o Zangão, ficava no baixo e fazia alguns vocais. O Maurício era o vocalista principal, não muito afinado. Hoje, ao ouvir as fitas gravadas na ocasião, fica perceptiva a falta de noção. Mas, mesmo assim, a banda fazia sucesso na cidade. Ensaiavam na casa do Maurício, na vila onde moravam os engenheiros que trabalhavam na Hidrelétrica Itaipu.
E foi com a Stylo Livre que Aquiles deparou-se pela primeira vez com uma guitarra com pedal de distorção. Foi demais! O pai do Maurício costumava viajar todos os anos à Alemanha para visitar o pai. Nessas viagens trazia guitarras novas – tanto, que Maurício tinha duas Aria Pro II. Guitarras que todo mundo queria tocar, nem que fosse só com a mão.
A bateria de Aquiles não tinha tom-tons: tinha um bumbo, uma caixa, um chimbal e um prato de ataque, que ficava pendurado no teto, na falta de um pedestal. Esse prato era legal, porque cada vez que ele o tocava, o prato ia e voltava. Então, ao tocá-lo Aquiles tinha que se abaixar e esperar o prato voltar ao lugar.
A turma não tocava muito bem. O Ronald estudava piano clássico há sete anos e por isso se destacava. Já o Zangão, era mais “mutreteiro”, mudava o desenho do corpo do baixo Gianinni a base de lixas, mexia na captação e fazia o seu próprio baixo. Usava modelos do catálogo da Ibañez e transformava seus baixos para ficarem idênticos, aplicando até logotipo! Só o som não ficava igual, obviamente.
“Uma vez nós fomos tocar em um festival que tinha uma banda de Recife, cujo baixista realmente tinha um Ibañez. Ele foi tocar com o baixo do Zangão e falou: “Pô, meio estranho o som desse baixo, acho que te enganaram...”
MUITA ATIVIDADE E NADA DE GRANA
textos por Circe Brasil
Levar a vida era dureza. O dia de Aquiles iniciava as sete da matina, quando ia para a escola. À noite, tocava com a banda, voltando para casa às 2h da madrugada. O sono acumulava, tanto, que nos intervalos das aulas, enquanto os seus colegas estavam indo jogar basquete ou futebol, coisas que antes ele fazia com gosto, agora optava em ficar dentro da sala de aula dormindo, se refazendo para agüentar o tranco. À tarde não havia tempo para descanso, ele ensaiava com a Tropical Band no bar (Speed Way) e ainda jogava no Flamenguinho.
Apesar de ter que conciliar tudo isso, era uma vida considerada meio de vagabundo, porque nenhuma das atividades dava retorno financeiro. Grana que é bom, não recebia. Levou uns seis meses nessa roda viva: futebol, Tropical Band e escola, mais a bandinha com o Silvio.
A sobrecarga de atividades pesou e no término do ano ele ficou em recuperação em quatro matérias da escola. Por azarão, na final de campeonato foi disputar uma bola de cabeça e o adversário lhe bateu no nariz e abriu uma espinha que estava lá. Mais tarde, entrou na piscina do clube do time (o Gresfi) e o ferimento inflamou. Era domingo e no outro dia iniciava a recuperação.
"Na segunda, na hora em que acordei, o meu olho estava inflamado, todo fechado, pois a espinha era perto do olho. Fui até a escola de óculos e o professor falou: "Pô, Aquiles você vem pra aula de óculos? "Eu falei que não estava bem e tirei os óculos. O professor disse: "Você não pode vir à aula assim, você pode passar isso para os outros alunos que estão aqui! "No fim, fiquei em casa aquela semana inteira e por algum motivo não me deixaram recuperar aquelas aulas. Tive eu, que repetir o ano."
Não era mais a escola em que ele montou o time de futebol, se tratava do Monsenhor Guilherme. O professor alegou à Dona Maria da Glória a falta de tempo hábil para a recuperação e disse que adoraria ajudar, porém não teriam tempo para recuperar, antes das férias. Ela entendeu e até disse que não adiantava passá-lo para a próxima série se ele não tinha aprendido as matérias direito. Hoje, Aquiles tem uma opinião bem diferente daquela adotada na época. Afinal, ser reprovado mexe profundamente com a cabeça de um adolescente, principalmente, num momento em que ele começa a pensar que vai ser um fracassado, que não vai conseguir alcançar os objetivos e que não vai se realizar na vida. Uma reprovação altera a auto-estima. Por outro lado, a turma estava engajada, estudando muito, fazendo trabalho em grupo e Aquiles ficava totalmente por fora, com a cabeça na banda. Ele queria mesmo era ser músico.
Ao findar o ano, o Silva, da Tropical Band, solicitou à mãe de Aquiles a sua permissão, para levá-lo pelo Paraná, tocando junto com a banda. Seria o máximo para Aquiles que estava muito a fim de ir. Como tinha que repetir o ano, usou isso a seu favor.
"Falei pra minha mãe: "Pô, já que eu repeti, acho que não vai dar certo essa de estudar, eu quero ser músico. " Mas minha mãe falou: "Olha, não posso fazer isso. Daqui a pouco seu pai volta e pergunta: `Cadê o Aquiles?´ E eu vou ter que dizer: "Ah, ele foi embora..." Meu pai sempre deixou claro que a gente podia fazer o que quisesse, mas não podia deixar que nada atrapalhasse os estudos. E minha mãe não queria assumir a bronca de me deixar ir e eu fiquei muito puto, porque eu queria muito seguir meu rumo. Mas hoje, sou muito agradecido a ela, porque sei que se ela não tivesse me segurado, eu não sei o que teria acontecido. Talvez, eu virasse músico mesmo, mas de outro estilo de música e com outro tipo de visão. Definitivamente, nem sempre um "não" é ruim. "Hoje, olho para trás e vejo que todas essas pequenas decisões foram importantes e culminaram no caminho que resolvi seguir."
TRÉGUA
textos por Circe Brasil
Aquiles Priester não teme as dificuldades, já está habituado a enfrentá-las e vencê-las. "Não me dou por vencido, quando a dificuldade acha que ela me venceu, era só uma trégua."
"Então, de repente eu estava sem banda, sem emprego e fazendo um bico como trabalhador braçal. Foi o pior momento da minha vida. Estava com 24 anos, e certas coisas não entram na cabeça nessa idade. E teve uma coisa que foi fundamental. Eu sempre vivi muito esse lance do sonho, nunca concordei em momento algum da minha vida com aquelas pessoas que dizem que os sonhadores são as pessoas que só sonham e não as pessoas que realizam. No meu caso, eu sou uma pessoa que sonha e que faz as coisas acontecerem. Durante esses anos eu sonhava e via que progredia. Às vezes, eu tinha que rever algumas coisas pra seguir mais a frente, e mantinha muito claro na minha cabeça, a trajetória do Iron Maiden, mais especificamente a do Steve Harris, que era o cara com quem eu mais me identificava pela vontade que ele tinha de fazer a sua banda dar certo. Ele lutou contra todos e achou as pessoas que acreditaram nele e que o ajudaram a realizar seu sonho. Então, naquele ano de 95, quando eu estava com 24 anos, foi até estranho, mas eu associei isso com a vida dele. O Steve é de 1956 e com 24 anos, em 1980, ele já tinha estourado e sua carreira ia muito bem. E foi ali que baixou o meu astral mesmo, eu quase me entreguei.
Eu já estava namorando a Patrícia há três anos e tinha uma preocupação com a sociedade que estava à minha volta, ou seja, com a minha família e com a família dela. Minha sogra, dona Elizabeth, e meu falecido sogro, sr. Ailton, nunca me pressionaram. Até hoje, quando a gente está naqueles papos mais descontraídos dos encontros familiares, eu ainda tento de alguma forma saber o que minha sogra pensava daquilo naquela época e ela sempre diz que não se preocupa porque eu passava a impressão que era uma boa pessoa, e que iria dar a volta por cima e fazer as coisas acontecerem. E isso é muito bacana, a Patrícia foi uma pessoa fundamental pra mim, principalmente nessa época ruim, porque às vezes eu me pegava em umas situações de não ter dinheiro nem pra pegar o ônibus pra ir buscá-la no trabalho, inglês ou na gnose. Naquela época a gente não tinha carro ainda, mas eu sempre fazia questão de buscá-la na agência de publicidade que ela trabalhava ou nos cursos que ela estivesse fazendo. Tinha momentos em que eu dizia que não ia, porque tinha reunião pra ver se eu entrava em alguma banda, por exemplo, mas era cascata, o que eu não queria era falar pra ela que o namorado em quem ela estava investindo um relacionamento não tinha dinheiro nem pra ir buscá-la de ônibus, entendeu? Eu não cheguei a contar isso pra ela, mas aos poucos ela percebeu. A gente se via todo dia, quando eu não podia buscá-la era porque estava fazendo aula ou estava tocando com alguém, mas naquela época eu não estava fazendo nada, então poderia ir. E aquele nosso relacionamento me fazia muito bem porque era uma coisa em que eu acreditava e era o que me dava força.
Patrícia começou a perceber porque eu estava deprimido pra caramba, mal falava, comia pouco e não estava mais naquele ânimo, sabe? Eu não era mais o mesmo Aquiles de sempre. E ela foi a primeira pessoa que, de certa forma, conseguiu fazer com que eu falasse essas coisas de uma maneira que eu não me sentisse mal, porque, pela educação que eu tive, era o homem que tinha que fazer e acontecer, homem não chora, é o homem que sabe das coisas etc. Isso é algo que eu herdei do meu pai e que eu consegui mudar muito com o passar dos anos. Não que eu ache que esteja errado, mas é uma época completamente diferente, há muita diferença entre o que a gente vive hoje e o que se vivia há 25 ou 30 anos. Então, com certeza eu não estou criando meus filhos da maneira como meu pai nos criou, eu e os meus irmãos. E a Patrícia sempre soube sacar muito bem, fora a nossa parte do relacionamento de homem e mulher, tinha um esquema de sermos muito amigos e é assim até hoje. Nosso casamento nunca teve altos e baixos, a gente sempre foi super estável na vida afetiva na forma mais ampla possível.
E como se não bastasse, eu ainda tive que parar de fazer aula de bateria porque a grana acabou. E eu senti muito porque toda a parte básica eu fiz muito bem estudando e me dedicando. Quando eu falei pro Kiko que ia ter que sair porque a grana tinha apertado, eu percebi que ele sentiu muito, também. Ele disse que era uma pena, que a gente ia entrar num campo em que eu poderia realmente aplicar as coisas que tinha praticado durante todo aquele tempo. Mas eu não tinha escolha e ele também não tinha, porque é muito difícil você achar um cara que de aula e que possa simplesmente adotar um aluno. E ele também precisava da grana. Então, passei a praticar o que tinha aprendido em casa, mas não era a mesma coisa, estava muito desmotivado, me sentia totalmente perdido.
A minha família, por seu lado, nunca viu esse negócio de música como uma coisa que realmente fosse dar certo. Nunca tive nenhum tipo de desaprovação na minha casa, até porque nossa família era meio estranha, a gente não era do tipo de, por exemplo, ter um almoço de domingo de que todo mundo participasse, aquela coisa sagrada, entendeu? Isso aí nunca teve, na nossa casa sempre foi aquele entra e sai que não parava nunca. Então, esse era o tipo de coisa com que eles não se preocupavam. A única coisa que me falavam é que eu precisava arrumar um emprego. Acho que nem percebiam que eu estava pra baixo, até porque eu ficava muito tempo dentro do meu quarto, que era onde eu estudava, que era onde eu ficava lendo as revistas de heavy metal da época e alimentando os meus sonhos, além de recortar as coisas mais importantes e coloca-las nas portas dos armários. A minha mãe percebia a minha depressão algumas vezes, mas ela percebeu mais na época em que eu me mudei de Foz do Iguaçu para Porto Alegre, naquela época eu fiquei muito mal mesmo. Mesmo encontrando a Patrícia e dando umas voltas, essa foi uma época muito ruim na minha vida. Não gosto nem de lembrar... E o estudo nem funcionava como válvula de escape porque não tem nada pior do que você falar que acredita em uma coisa, mas não conseguir aquilo e perceber que a cada dia está mais longe do seu sonho."
A ZONA E A BOMBA
textos por Circe Brasil
As bandas paralelas eram brincadeira, nem sabiam o que tocar. Muitas vezes, iam pro bar, tentavam tocar e não acontecia nada.
"Numa certa noite, o dono de uma boate lá de Três Lagoas, num bairro na periferia, foi até o bar onde eu estava tocando e me convidou pra substituir um baterista pra tocar numa zona - zona mesmo! Eu nem sabia onde era, mas o cara disse que ia me pagar uma grana e eu pensei: "Pô, tocar e ganhar uma grana, vou nessa, deve ser bom!" Tinha só 15 anos, e fui. O cara falou que era uma boate - boate, na minha cabeça, era pista de dança e discoteque. Na época em que a gente dançava break, nos apresentávamos em algumas boates e era assim. Chegando lá, tinha um monte de mulher gostosa pra caralho que já vieram pra cima: "Ai, que bonitinho esse menininho até parece um Menudo." Mas aí o cara que me contratou disse que eu era o batera e fomos tocar. Eu nunca tinha tocado com aqueles caras, ele me apresentou na hora. Porra, me deu muito medo porque era um gaiteiro [como chamam os sanfoneiros no Sul], que era cego e estava meio escuro. Eu estendi a mão para cumprimentá-lo e eu não vi que o cara era cego, então ele não fez nada e eu pensei que o cara não tivesse gostado de mim pelo fato de eu ser jovem, foi um negócio meio pesado. Eu ia tocar com ele e com um baixista. Mas não era música regional, eles faziam uma adaptação e tocavam alguns covers. Bicho, não deu outra: eu sentei pra tocar e me deu um negócio ruim, do tipo: "Ninguém sabe onde eu estou. O que eu estou fazendo aqui?" Aí, me deu uma pane, ali na hora surtei com o que estava acontecendo e falei: "Caralho, acho que vou embora!" A gente já tinha tocado um bloco e eu vi um monte de homem entrando, aquela mulherada, os caras dando risada, fumaça, bebida, festa, amassos... Comecei a me sentir mal, acho que nessa época eu era virgem ainda e pensei: "Essas mulheres vão me estuprar depois do show!"
Sei lá, fiquei pensando um monte de coisas e convenci o cara a me levar embora na metade do show. Eu disse: "Me leva pra casa, eu falo pro meu pai onde eu estou e depois nós voltamos." O cara queria ligar, mas eu falei que não tinha telefone, porque ele ia falar com a minha mãe e ela ia dizer que tudo bem, ela não ia se incomodar - a menos que soubesse que era um puteiro, mas isso o cara não ia dizer. Só que eu não queria ficar ali. Então, o cara me levou e ficou me esperando no portão de casa. Eu entrei, voltei e falei que minha mãe não tinha deixado eu voltar. O cara foi embora meio puto. Isso era numa sexta-feira e no sábado à tarde a gente estava ensaiando lá em casa, eu, o Silvio e o Cabeça, com as caixas que não funcionavam. O Cabeça não tocava nada, mas ele era um cara que tinha boa pinta, um bon vivant e cheio do ouro... E estávamos lá e o Cabeça rebolando e tocando quando chega o cara de carro outra vez para me convidar para tocar na boate naquela noite. Aí, ele disse; "Você já tem uma banda pronta, vamos levar vocês hoje lá." O Silvio perguntou: "Levar onde, como assim?" E eu falei que era uma boate que tinha um monte de puta e o Cabeça que era mais velho, falou: "Vamos nessa! Quanto é que você paga?" o cara deu uns cruzeiros lá pra gente e nós fomos. Aí, eu me senti bem, porque estávamos em três amigos. E foi realmente uma festa, porque era o seguinte: quem tocava mesmo era eu e o Silvio, a gente tocava Radio Táxi, Ultraje a Rigor, Titãs, Blitz, e o Cabeça só dublava, ele fazia de conta que tocava, não espetava completamente o plugue do baixo na caixa. Só que, numa dessas, o contratante viu que o plugue estava fora e espetou até o fim. Quando ele fez isso, apareceram todas aquelas notas tortas e nem afinado o baixo estava, um terror... Eu e o Silvio ficamos só olhando pra ele e o cara do lado, querendo entender o que tava rolando... Mas pra quem estava vendo, tipo a mulherada que não entendia nada, o Cabeça era o baixista da banda, e era bonito! Mas aí a gente foi lá e abaixou de novo o amplificador dele e seguiu a noite inteira assim. Quando acabou a festa, o Cabeça e o Silvio foram para os amassos do fim da noite. As mulheres viram lá os caras de tipo 15, 17 anos e resolveram tirar umas ondas com os meninos. Aí, rolou aquela "sofasada" mas nada aconteceu realmente. Eu estava com um pouco de medo, eu era virgem, mas o Silvio e o Cabeça foram fundo. Mas acho que essa foi a primeira aparição com uma banda minha."
Mas levar a vida era dureza. O dia de Aquiles iniciava às 7h quando ia pra escola, à noite tocava,voltando para casa às 2h da matina. O sono acumulava, tanto que, nos intervalos das aulas, enquanto os seus colegas estavam indo jogar basquete ou futebol, coisas que antes ele fazia, então, ficava dentro da sala de aula dormindo, pra agüentar o tranco. À tarde não havia tempo pra descanso, ele ensaiava com a Tropical Band no bar (Speed Way) e ainda jogava no Flamenguinho.
Apesar de ter que conciliar tudo isso, era uma vida meio de vagabundo, porque nada dava retorno financeiro, não recebia grana. Levou uns seis meses nessa: com futebol, Tropical Band e escola, mais a bandinha com o Silvio.
A sobrecarga de atividades pesou e ele ficou em recuperação em quatro matérias. Por azarão, numa final de campeonato foi disputar uma bola de cabeça e o adversário lhe feriu...Era domingo e a recuperação na escola estava marcada para o outro dia.
GAGUEIRA
textos por Circe Brasil
Aquiles tem uma leve gagueira adquirida na infância. Hoje é um lance sutil, mas já foi pior e mesmo assim não carrega apelido tipo "Gaguinho". Sua forma de falar não apresenta problema, nem em entrevista. Se está tranqüilo e falando pausadamente sequer se percebe. Mas quando fica ansioso e sente que está gaguejando a coisa pega e como ele diz: "Numa travada é só fazer de conta que não aconteceu nada e tocar adiante". Receita de expert.
A origem disso é uma história bizarra. Aconteceu na África quando Aquiles estava com uns quatro anos de idade, sua mãe tinha uma criação de gansos e como não era para menos curioso como ele só entrou no local onde havia um ninho e mexeu nos ovos que estavam chocando. No que ele toca no ninho a gansa foi pra cima e puxou seu calção. Com o susto saiu correndo e ela puxando seu calção e conseqüentemente puxava ele pra trás, até que ele se desvencilhou do calção e voou pelado pelo pátio... Ali travou... A partir de então ficou gago. Que susto!
Apesar de nunca ter sido problema, houve uma época em que se preocupou. Lá pelos vinte e cinco anos, em suas atribuições profissionais estava a de fazer palestras, contato direto com o público. As próprias pessoas que o indicaram para a função, naturalmente sabiam que ele era um pouco gago e admitiam: "Sua maneira de falar cativa as pessoas, isso é legal. Não quero que você faça nada para mudar".
"Mas, mesmo assim, eu fui tratar e aí aconteceu uma coisa muito estranha. A minha agenda era muito cheia. Eu entrava na fábrica às 7h, saía às 17h, às 19h tinha que estar na faculdade e voltava pra casa às 23h30min. Então, o único dia em que eu estava mais livre era sexta-feira, lá pelas 21h30min, e eu consegui uma fonoaudióloga que aceitou me tratar nesse horário, só que ela estava prestes a se casar. Um dia o noivo dela foi buscá-la e me viu, eu de terno e gravata, bem apresentado, de cabelo curto. Ficou enciumado. Não tinha nada a ver, mas ficou meio estranho. Eu falei com ele e depois ele disse para ela: "O cara não é gago porra nenhuma, o que ele está fazendo?" Depois de uns três meses de tratamento, ela falou: "Olha, não vou mais poder tratar você porque eu estou me envolvendo contigo de uma maneira que eu não deveria." E eu já namorava minha esposa, a Patrícia, cheguei até a contar pra ela. Aí eu falei: "Bicho, quer saber, isso [a gagueira] é um fato, nunca foi empecilho e vamos em frente." Mas hoje em dia voltou a vontade de me tratar, sabe... Eu convivo com muita gente, as pessoas vêm conversar e gostam de esticar o assunto, entende?"
E, se ele ficar ansioso, já viu, vai travar.
O CAMPO DO AQUILES
textos por Circe Brasil
Quando veio morar em Foz do Iguaçu, Aquiles com sua família ficou quase um ano e meio numa casa, no campo. Caminhavam muito, mas muito mesmo, para ir à escola. Ele e seus irmãos iam a pé, pela falta de grana. Mais tarde, mudou-se para uma casa, num bairro chamado Vila Maracanã, na parte urbana da cidade. Ao lado de sua casa, existia um terreno baldio, que só tinha mato e morro. Aos poucos o pequeno Aquiles foi fazendo amigos, e não foi difícil convencer os vizinhos, que eram três irmãos: Roni, Roberto e Robson, e também um outro amigo que chamavam de Sérgio "Lajota" (por causa da sua cara quadrada), a topar a loucura de capinar o terreno para jogarem bola.
Aquiles brigava quase todos os dias de dar porrada com o Roni e, no dia seguinte, tudo ficava bem... Suas idades se equivaliam e essas brigas demoraram uns sete anos para terminar. Diariamente, depois da aula, os amigos iam lá para o terreno, com enxada e sabe-se lá o que mais, para fazer o trabalho. Já tinham capinado tudo, só que estava cheio de ondulações.
Com freqüência eles avistavam por ali, um caminhão da prefeitura com aquelas lagartas, tipo escavadeira, e toda vez, pediam para o motorista passar a máquina no terreno. É claro, que o cara não ia. Eram uns cinco ou seis molequinhos de sete e oito anos pedindo: "Pô, eu quero jogar bola! Aqui vai ser nosso campo". Daí eles apelavam: "Não dá pra jogar, tá todo mundo machucado, as canelas estão todas raladas de tanto a gente cair na terra e tal." Até que um dia, o cara cedeu: "Eu vou ajudar vocês!" Ele foi lá, aplainou tudo e chamou um amigo que tirou as sobras numa caçamba.
Valeu a ajuda, mas o terreno ficou todo fofo porque mexeu muito na terra e, então, todo mundo ia bater com os pezinhos para tentar aplainar. E assim foi. Passadas umas três ou quatro chuvas, o negócio assentou. Não deu outra, quando marcavam de jogar futebol, o pessoal começou a falar: "Vamos jogar onde? Lá no campo do Aquiles."
"O campo do Aquiles" se manteve de 77 até 84. Jogavam um tipo de futebol de salão, onde ficavam quatro na linha e um no gol. Demarcavam o campo com cal, mas ele acabava na rua, por isso era preciso ter muito cuidado na hora em que a bola saía para ninguém ser atropelado. Porém o maior problema não era este, e sim o dos morados da casa de trás do gol. Havia uma janela que já fora quebrada várias vezes. Quando a bola caía lá, a dona da casa pegava e furava. Os garotos não podiam fazer nada e também não queriam botar os pais no meio. Eles mesmos queriam resolver as coisas para evitar briga maior, entre adultos.
Durante uns dois meses saiam todas as tardes a catar ferro velho, no lixo. Venderam as sucatas e com o dinheiro compraram sacos de estopa e pediram para a mãe do Aquiles ensinar como é que costurava aquilo. Numa serralheria compraram dois pilares bem grandes. Então, pregaram na cerca da casa e estenderam o "negocião" lá.
"Aquilo ficou parecendo uma favela! Só vendo. A gente achava que o cara ia ficar feliz porque resolvemos o problema e ele ficou mais puto ainda! Imagine um monte de sacos de estopa de várias cores costurados para segurar a bola! Aquilo ficou lá quatro ou cinco dias, porque a rua em que a gente morava dava acesso a uma favela que ficava a uns mil metros dali. Não deu outra, ali passava muito maloqueiro e os caras começaram a zoar, arrebentar a proteção. Chegávamos lá e estava tudo no chão. A gente arrumava e arrebentavam de novo. Todo o tempo em que existiu esse campo foi assim. Chegou uma época em que chegamos a fazer traves menores exatamente para o cara não chutar mais alto e teve uma outra fase em que fizemos gol de caixote, para jogar sem goleiro, ou seja, sempre tentando achar um jeito pra resolver as coisas."
A umas quatro quadras dali tinha um campo grande de futebol chamado de Afonjá (por causa da família que morava do lado do campo), em tamanho, era umas três vezes maior que o Campo de Aquiles... Aquiles sempre estava batalhando para o seu time ser campeão, para vencer o Afonjá, considerado o melhor time da região. Até que um dia, Aquiles foi chamado para jogar no Afonjá Esport Clube. Escalado! E agora?
Aquiles Priester
textos por Circe Brasil
Como na teoria da origem da vida, Aquiles Priester nasceu na África, precisamente na pequena cidade de Otjo, vivendo um tempo em Newcastle e Port Elizabeth. E, também como no decorrer da história da humanidade não se fixou no local de nascença. Igual ao vento e as águas corre pela terra levando a música. Filho de Bertoldo Priester e Maria da Glória dos Santos Priester, Aquiles herdou a resistência, a desenvoltura e a garra do pai, somados à dedicação, à persistência e a adaptação resiliente da mãe.
“O meu pai tem seu valor por ser uma pessoa sem medo de enfrentar o desconhecido, e nos passou muito a importância de acreditarmos em nós mesmos, de termos orgulho e de encarar a vida de frente! Ele sempre foi muito orgulhoso, não gostava de receber ordens e muito menos desaforos, além de ter sido sempre muito aventureiro, do tipo de pegar uma moto e sair viajando por meses com minha mãe e os filhos pequenos . Com ele não tinha tempo ruim, se tivesse que acampar na beira da estrada, tudo bem.
”Com este espírito aventureiro e destemido Bertoldo aceitou, na década de sessenta, uma proposta e rumou de Mato Grosso para Port Elizabeth, na África do Sul, levando a família.Multitalentoso o pai de Aquiles trabalhou em construção civil, em mecânica automotiva e hidrelétricas, nas mais diversas cidades. Além de tudo, seu Bertoldo tocava violão e como músico ele foi parceiro do Adoniran Barbosa. Sendo citado na popular música “Saudosa Maloca”.Na música “Saudosa Maloca”, há duas referências a “Mato Grosso”, dirigida a Bertoldo que levava este apelido porque nasceu no Mato Grosso: “Foi aqui, seu moço, que eu, Mato Grosso e o Joca / Construímo nossa maloca” e “Mato Grosso quis gritá / Mas em cima eu falei / Os home tá coa razão / Nóis arranja outro lugá”. Essa música eles fizeram numa roda de amigos, mas quando Adoniran foi registrar, Bertoldo já estava bem longe.
“Meu pai ainda toca violão. Ele era um seresteiro e sabe muito bem como fazer isso: domingão, churrasco a tarde inteira em torno de uma mesa com os amigos, cerveja e violão.”
Dona Maria da Glória é uma heroína, mesmo enfrentando muitas dificuldades, sempre atendeu a todos com muito cuidado. Na sua educação a mulher tinha que ser submissa, obedecer e seguir o marido, mas ela seguia-o acompanhada dos filhos, com amor a sua família. Sua trajetória iniciou em 1966 quando embarcou no navio com quatro crianças, sendo que o Sansão estava com apenas quatro meses. A viagem durou vinte dias, de Santos para a África do Sul. Depois passou por muita coisa complicada, como morar numa casa com todo o conforto material num dia e no outro dormir numa barraca.
“A mãezinha é uma mulher de fibra que, mesmo com a pouca educação que teve, ensinou meus irmãos mais velhos a ler e escrever em português antes de voltar para o Brasil, além de fazer milagres quando a grana estava curtíssima. Mas quando a grana estava melhor, ela adorava comprar presentes para todo mundo e esconder até a noite de Natal. Ela é, com certeza, uma mulher fabulosa! Poderia falar muito, muito mais...
”As situações econômicas vivenciadas pelos pais de Aquiles foram bastante inconstantes. Houve uma época, antes de seu nascimento, em que seu pai estava bem empregado numa multinacional italiana, possibilitando morar numa bela casa com quatro quartos, com os filhos estudando em colégio particular, freqüentando clubes, e demais mordomias. Até que num dia ele se irritou no trabalho, pediu demissão, pegou a família, colocou na camionete D10 e caiu na estrada. Radicalmente a vida mudou de um dia para outro, saindo do conforto de uma casa com cozinha com fogão elétrico, para um fogareiro de uma boca. Passado um tempo, na busca de emprego, surgiu a oportunidade no norte da África e ele não pensou duas vezes. Enfrentou a viagem de quase uma semana pelo deserto, sem água potável, só com água salobra, e com cinco filhos pequenos! Quem pode imaginar? Assim agia o Pai de Aquiles.
Chegando a Otjo, Seu Bertoldo arrumou emprego como soldador e as coisas começaram a melhorar. Moraram numa vila onde todo mundo trabalhava na mesma empresa e moravam em trailers. Os dois filhos mais velhos, David e Demétrius, ficaram internos num colégio em Otjo, porque na vila não havia escola. No dia 25 de junho de 1971 Dona Maria da Glória entrou em trabalho de parto, Aquiles estava chegando e fazendo barulho.“O meu nascimento foi traumático, pois a medicina lá não era muito avançada e os médicos eram muito rudes. O que eu sei é que estava sentado e tinha que nascer por cesariana, no entanto o médico fez parto normal. Eu nasci saudável, mas minha mãe ficou quinze dias internada, dos quais nove ela mal conseguia se mexer de tanta dor. Graças a Deus deu tudo certo e nós dois ficamos bem!”O pai de Aquiles seguia o costume local de caçar animais selvagens para terem carne em casa. Ele caçava Kudu (alce) e, às vezes, porco-espinho. O problema é que um dia ele resolveu caçar uma girafa, o que era proibido. Alguém viu e o entregou para a polícia. Enquanto estava em casa carneando a girafa, chegaram os policiais que, além de confiscar toda a carne, também levaram Bertoldo preso. Ele foi liberado após a fiança ter sido paga.
“Quando eu tinha seis meses, meu pai resolveu que queria voltar para o Sul, e lá chegamos após mais uma longa viagem. Os meus irmãos mais velhos ficaram no colégio interno para não perderem o ano, pois meu pai sempre valorizou muito os estudos. A viagem de volta foi tão difícil ou mais que a de ida, porque tinha um neném de seis meses a bordo, eu! Minha mãe conta que dormíamos na beira da estrada, e o mais bonito de se ver eram os animais selvagens muito perto dela. Ela cansou de ver zebras, girafas, elefantes, avestruzes e até rinocerontes.” Chegaram à cidade de Hendrina, onde Bertoldo conheceu Jacob, seu futuro sócio.
Jacob arrumou um emprego para ele na hidrelétrica da cidade. Enfim, voltaram a ter uma vida normal, com casa confortável e escola boa para as crianças. Depois disso, ainda mudaram para mais duas cidades antes de chegar à Newcastle, a última cidade antes de retornarem ao Brasil. O irmão mais novo de Aquiles, o Hércules nasceu em Hendrina e, logo em seguida, seu pai abriu a sociedade com o Jacob, que era brasileiro, e mais um espanhol. Tratava-se de uma empresa de construção civil com a qual o pai de Aquiles ganhou muito dinheiro. Achou que estava rico e resolveu voltar para o Brasil em 1977, sem planejamento algum e com sete filhos!Aguardem que em breve escrevo mais...
AQUILES PRIESTER ''DE FÃ A ÍDOLO''
textos por Circe Brasil
Aquiles Priester é o batera de Heavy Metal, nascido na África, criado no Brasil e reconhecido no mundo. É sobre ele que estou copidescando a vida em um livro autobiográfico, para mostrar aos fãs, aos curiosos, aos críticos, aos pesquisadores e demais adoradores de música, a trajetória deste vencedor. Num caminho nem sempre fácil e de muita dedicação e persistência na realização de seu sonho, é um exemplo para seus seguidores. A fera de pés de anjo é apaixonado pelo que faz, leva muito em consideração o seu público e respeita seu corpo físico e mental evitando qualquer tipo de droga.
Contra o radicalismo e a miopia de estilos musicais, Aquiles afirma: “Eu sempre quis ser um baterista de Heavy Metal. Isso é a minha vida. Sou eclético e gosto muito de outros estilos de música. Ouvir outros estilos é fundamental para o desenvolvimento de qualquer músico. Eu toquei em bandas Cover e de Baile por muito tempo, mesmo quando eu já queria tocar Heavy Metal e isso faz com que eu toque Heavy Metal de outra maneira, harmonizando a bateria de forma bem pessoal. Se aparecer a chance de eu gravar um disco de outro estilo, e eu achar que farei esse trabalho bem feito, não terá problema nenhum. O radicalismo só limita os horizontes.” (publicado no site Whiplash) Ainda no processo do desenvolvimento do livro, me surpreendo a cada página com a história de Aquiles Priester, com a riqueza de experiência e de força de vontade do garoto que enfrenta as adversidades culturais e as armadilhas da inocência, num mundo tão fechado e um tanto preconceituoso, superando as necessidades econômicas e ultrapassando as barreiras de tempo e espaço, para conquistar o terreno que provou ser seu de direito. O polvo domador de baquetas conta tudo, sem desconto, sobre como chegar lá e nunca parar para lamentar. O aproveitamento da composição dos fatores genéticos, da criatividade, da paixão e do apoio das amizades.
Os bastidores, as decisões e a energia do âmago em cada ultrapassagem. Sem limites, sem vacilo, sem derrotismo. Só superação. Super ação.A partir de agora, de tempo em tempo, vou dar umas letrinhas do conteúdo do livro para você curtir comigo neste ensaio. Em comemoração ao aniversário de Aquiles, neste 25 de junho, vou contar suas raízes.
SOBRE A AUTORA
Circe Brasil: Comunicóloga, (Relações Públicas e Publicitária, com especialização em Marketing pela UFRGS) - Natural de Santa Maria/RS, residente em Porto Alegre. Autora de crônicas e poesias. Publica em iscas intelectuais no site www.lucianopires.com.br, no Beliscas.
Contato: circegodoy@hotmail.com
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